1975 / Brasil
Mestiço - Itagra / LP - 1975 / Brasil

01 – Jandira (Luiz Henrique / Raul Caldas Filho) 

02 – Mestiço (Luiz Henrique) 

03 – Sonhar (Luiz Henrique / Raul Caldas Filho) 

04 – Saiandeira (Luiz Henrique)

05 – Say Hello To K T (Pra Não Deixar de Sambar) (Luiz Henrique)

06 – Dianne (Luiz Henrique)

07 – Sempre Amor (Luiz Henrique / Oscar Brown Jr.)

 

Voz e Violão - Luiz Henrique

Sax, Flauta e Arranjos - J.T. Meirelles )

Teclado - Laércio de Freitas & William

Piano - Tenório Jr. 

Baixo - Luizão

Baixo acústico - Edson Lobo

Bateria - Paulinho Braga & Edison Machado

Percussão - Hermes

 

LUIZ HENRIQUE 

 

Num dos 10 LP’s que Luiz Henrique gravou nos Estados Unidos, onde atuou de 1964 a 1971 – sete anos – sua amiga Liza Minnelli assim o apresenta: “... não só sua voz, mas também seu violão que ele toca com extraordinária beleza. E os dois juntos transportam para um lugar maravilhoso chamado Brasil. A música de Luiz Henrique tem um mistério que só ele entende, mas um mistério que todos se identificam”. 

 

O cantor, compositor, violinista e arranjador catarinense fez uma carreira muito rápida para quem sai de Florianópolis em 1961, vai para Porto Alegre e chega ao Rio de Janeiro em 1962, pousando no Beco das Garrafas, via João Gilberto. Grava seu LP na Philips em 1963 (“Vou andar por aí”, “Sambou, sambou” e “Balanço do Mar”) com a participação de Edison Machado, Raulzinho do Trombone, Luiz Carlos Vinhas e Meireles. Em 1964, em meio a shows e apresentações no Rio e São Paulo, vai para os Estados Unidos com o Sexteto de “jazz”  de Paul Winter. Era a invasão dos músicos brasileiros, que Tio Sam aceitava depois do Histórico concerto de 1962, no Carnegie Hall. A bossa-nova era então o abre-te sésamo. 

 

Além da excursão que faz ao Japão, agora com Stan Getz, Luiz Henrique se apresenta em mais 40 universidades norte americanas, no Philarmonic Hall, no Lincoln Center de New York e em casas como o Village Vanguard e Café Au Go Go. Suas atuações se estendem por Los Angeles, Washington, Chicago, Boston, San Francisco. Firma seu prestígio e faz programas nas tevês NBC, CBS e ABC. 

 

Como compositor, suas músicas por artistas do porte de Liza Minnelli, Harry Belafonte, Nancy Wilson, Oscar Brown Jr., Carl Tjader, Noel Harrison, Andrea Markowitzk, Sivuca, Walter Wanderley, Billy Butterfield, Bobby Hacket e Jean Pace. 

 

GRAVAÇÕES – Na etiqueta VERVE-MGM, em 1967, grava seus três primeiros LP’s nos Estados Unidos: “Barra Limpa”, “Popcorn” (com Walter Wanderley) e “Bobby, Billy, Brazil” (como arranjador e violinista). Para a marca Fontana, no mesmo ano, realiza os LP’s “Finding a new friend”, com Oscar Brown Jr. e “Listen to me”. Neste e nos anteriores atuam Sivuca, Dom Um Romão e J.J. Jonhson. Com Oscar Brown Jr., ainda, faz uma experiência de teatro musicado com a peça “Joy 66”, que fica um ano em cartaz em Chicago e também um ano em São Francisco. A produção, então em Nova Iorque, fica entre as cinco melhores peças “Off Broadway”, em 1970, sendo apontada para o prêmio Tony. Como arranjador e violonista para a Reprise o disco “The Eletric Experiments Over”, em 1968, para Noel Harrison, com música pop. Além de participar no Festival de jazz de Newport, realiza 15 Concertos em várias cidades com a banda “Blod Sweat and Tears”. Isto é um resumo do que Luiz Henrique realizou nos Estados Unidos. E não é pouco. 

 

MESTIÇO – As sete músicas deste LP, que Luiz Henrique realiza quase três anos após seu retorno dos Estados Unidos (“... descanso e reflexão, pois só sairei do Brasil para trabalhar e voltar em seguida”), são uma síntese do que sabe, do que aprendeu. Nunca uma colcha de retalhos, mas uma combinação, ordenada e lógica daquilo que ouve e lhe impressiona a sensibilidade, com o estrato íntimo de sua personalidade musical. Esse músico envolvido pela música do seu tempo, e em superior porção a bossa nova, mostra aqui como soube ajustar o modo brasileiro de sua expressão musical no samba canção, na valsa seresteira, ao rock, ao pop e a própria bossa nova que retorna em alguns números, porém agora expressos de um modo mais “free”. Sua obra é produzida com alto espírito profissional nos menores detalhes, próprio do verdadeiro artista. Luiz Henrique poderia ser mais conhecido no Brasil. Merecia. Com sua bagagem, com o que já fez, suas credenciais são muito altas. 

 

Seu enorme talento de arranjador está à vista tanto nos LP’s gravados nos Estados Unidos , como neste “Mestiço”. 

 

CAPA -  A capa e contra capa constituem um belo trabalho de Hassis – Hiedy Assis Correia – artista catarinense, com as constantes da antiga Desterro, ilha de Santa Catarina: o mar, o verde (não há lá uma chaminé) as bananeiras, as bananas, as pedras da praia de Itaguaçu, em cores rutilantes e quentes, mesmo selvagens. 

 

FAIXAS – A primeira faixa face A é JANDIRA, composta em Nova Iorque em 1970 e letra (1974) do excelente jornalista, cronista e contista Raul Caldas Filho que do quarto que dividíamos em 1969, aqui na Princesa Izabel, se mandou sem mais aquela “para contemplar a Baía de Los Perdidos, de um sobrado todo branco fincado na Praia do Meio, mais Luiza e dois rebentos”. Nesse rock LH começa dedilhando o violão, com voz, pianíssimos, para em seguida surgir uma bem urdida massa sonora onde sobressaem os saxes, com belo efeito. Novos acordes de violão preparam a entrada do cantor, que expressa bem a saga de JANDIRA, com sua voz afinadíssima e “instrumental”. Novamente os efeitos variados de percussão denotam um arranjo sofisticado, onde a matéria sonora sopros, percussão ou cordas – são empregados com excelente economia de meios. A melodia, bem realizada oferece a Laercio a oportunidade de marcante solo no piano elétrico. Retorna, o autor, com voz e violão, realizando os acordes finais. 

 

Mestiço, “SAMBA COMPOSTO DEBAIXO DA VELHA FIGUEIRA DO Jardim Oliveira Bello, Florianópolis” em 1975. Sua linha simples revela o bom gosto de LH, seu domínio de voz e violão, exprimindo bem o seu retorno à terra (por amor a ela), que é uma ilha de luz, de mar, com a geometria única das pedras serenas de Itaguaçu: “Amei/estou amando/Eu sou amado/Amarei”. A volta na linguagem do som. SONHAR é um samba-canção feito em Nova Iorque em 70, letra de Raul Caldas Filho em 1974. A primeira fase é do violão, seguida das flautas de Meireles que fazem um belo contra-ponto à exposição vocal do tema por LH. O resultado é uma atmosfera delicada, onde a tônica é o encantatório. Sobressai também o fraseado caloroso e ao mesmo tempo romântico do sax de Meireles. A interpretação do conjunto revela – e isto sente-se nesta e nas demais faixas – aquele misterioso entendimento de músicos competentes, que aliam esta competência a serviço da arte. Geram então esta atmosfera. O comportamento da voz de LH, extremamente afinada, transforma-se em um outro instrumento delicado e sensível. A letra faz e completa o clima. SAIANDEIRA tem sua exposição, alternadamente, em ¾ e em 6/8. Assemelha-se a uma tessitura finíssima, como aquela elaborada com paciência, consciência e arte pela aranha – a teia de uma melodia muito expressiva. “SAIANDEIRA? Me parece uma mulher... ou foi um som”, se pergunta o autor, que assina o arranjo. PRA NÃO DEIXAR DE SAMBAR (SayHellotoKT) feito para atriz e compositora Kay Thompson, é um som que abre a face B. É um culto à bossa-nova, o cordão umbilical onde o autor sempre se supriu e foi estuário de suas ideias musicais. Aqui LH desenvolve suas concepções e o diálogo mantido com o arranjador J.T.Meireles, faz com que os instrumentos improvisadores procurem identificar-se com as formas mais correntes. 

 

DIANNE, uma valsa, que Luiz Henrique interpreta com violões de seis e doze cordas. O modo de ferir as cordas, tanto para exprimir a linha melódica como o acompanhamento, assemelha-se ao modo de tocar tanto do México, como do Peru ou da Argentina. A graciosa melodia nos chega com muito jeito de uma valsa “sulamericana”, mas na medida que Luiz vai continuando a exposição do tema, ficamos diante de uma valsa bem seresteira, serenateira, que a gente ainda pode ouvir num subúrbio distante do Rio, numa madrugada de Diamantina ou talvez pelo penúltimo seresteiro do Jardim Oliveira Bello, em Florianópolis. Mais uma prova de versatilidade do autor, na melodia, no ritmo, no seu marcante desempenho harmônico. O violonista é um senhor braço, seguro, inspirado. A valsa foi composta em Chicago (1967). A composição integral é uma suíte, da qual esta valsa é parte integrante. SEMPRE AMOR é composição feita no Brasil, em 1963, também gravada nos EUA por Sivuca. O autor canta em Português e Inglês. É apresentada nos ritmos ¾ e 2/4, ressaltando-se o trabalho de Edison Machado na bateria, Edson Lobo no contrabaixo e Tenório Jr. no piano. A variedade rítmica dá à faixa extrema mobilidade. 

 

A coordenação técnica do trabalho está a cargo de Célio Martins, e o som é da responsabilidade de João Moreira, Guilherme Pires, Orlando Costa e Flávio Sena dos Estudos Haway no Rio de Janeiro (1975). As faixas Dianne e Saiandeira foram gravadas no estúdio Sound City, em Los Angeles, Califórnia, por Bill Drescher, em março de 1974. 

 

ILMAR CARVALHO

         © 2015 By Raulino Rosa

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